Aids: Uma sentença?

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Dezembro é o mês mundial da Luta Contra a AIDS e, mesmo com os anos de história, o vírus HIV continua sendo um tabu. Se a partida de inúmeros artistas, como Freddie Mercury e Cazuza, em decorrência da doença aumentou o entendimento da população, muito ainda precisa ser discutido. E, nessa entrevista, conversamos com um portador do vírus com mais de 60 anos, ou seja, alguém que acompanhou desde o surto inicial até os avanços atuais do tratamento. Mesmo assim prefere continuar anônimo e esse é também um direito.

Num apartamento decorado com requinte em um dos bairros mais elegantes de São Paulo, J.A.S.V. me aguardava para a entrevista numa poltrona de couro. Vestia-se por completo com a cor vermelha, a única exceção eram seus óculos roxos. A conversa era sobre Aids. Em meio àquela situação confortável, ele é a prova de que a Aids não tem fisionomia nem classe social. No auge dos seus 61 anos, relembra com certa leveza quando contraiu o vírus num Carnaval em Florianópolis. Os anos permitiram que ele se conhecesse melhor, a ponto de encarar de frente sua doença e contar todos os detalhes numa entrevista.

“Eu me sinto uma

pessoa cheia de vida”

Como funciona seu tratamento? Já tomei o coquetel completo e, há mais ou menos uns dez anos, minha médica aboliu um dos medicamentos, que é o inibidor de protease. Então, tomo cerca de meio coquetel. Agora, faz um mês que esses três medicamentos estão num único comprimido que tomo uma vez por dia antes de deitar.

E a medicação apresenta algum efeito colateral no seu dia a dia? Nunca tive nenhum efeito colateral, pelo menos não nesses medicamentos que eu tomo. Nos primeiros cinco anos, eu me recusei a tomar qualquer medicamento. Na época que descobri, o único medicamento que existia era o AZT e as pessoas que tomavam doses cavalares desse remédio terminavam com a pele escura, cabelo fininho e ralo e corpo esquelético. Escolhi não tomar. A Aids tinha uma cara e era esta a cara que eu nunca quis.

“A Aids tinha uma cara

e era esta a cara

que eu nunca quis”

Como você chegou ao diagnóstico? Estava me tratando de uma herpes com um especialista. Na mesma época, tive uma fístula anal e procurei uma proctologista. Minha médica perguntou se eu já tinha feito o exame de HIV, porque meu organismo estava coma defesa imunológica fraca. Disse que não e fiz uma bateria de exames. Deram todos negativos, com a exceção do HIV (risos). Isso foi em 1990. Já faz bastante tempo.

Como foi se descobrir portador? Foi um choque. Cazuza estava morrendo naquela época e acompanhei todo o drama dele pela imprensa. A Aids começou aqui em 83, já tinha sete anos no Brasil quando me descobri. Perdi muitos amigos, ex-namorados e pessoas conhecidas. Quando recebi a notícia, foi uma sentença de morte. Achava que, como toda essa gente que eu já tinha perdido, também seguiria o mesmo caminho. Só que foi diferente (risos). Já se passaram 25 anos.

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Como foi sua trajetória para enfrentar a doença? Lidei com minha própria doença de uma forma muito pessoal. Tive muita ajuda e essa descoberta me levou para o mundo espiritual. Inclusive, o pathwork, que faço, é um caminho espiritual. Conheci um mundo do qual eu estava bastante afastado. Virei terapeuta nessa metodologia do pathwork e tudo isso em decorrência de ter me descoberto soropositivo. Eu decidi, quando descobri, que queria saber a verdade do que estava acontecendo comigo e foi em busca dessa verdade que acabei me deparando com várias coisas que me ajudaram.

O lado espiritual que você desenvolveu era ligado a alguma religião? Não. O caminho espiritual não precisa necessariamente de uma religião. É basicamente descobrir quem você é de verdade, descobrir suas falhas e procurar transformar isso na sua vida. Algumas pessoas se acolhem em religiões, outras em trabalhos terapêuticos, eu fiquei mais desse lado.

“Cazuza estava morrendo naquela época

e acompanhei todo o drama

pela imprensa”

Como você contou para sua família? Não tive oportunidade para contar para meus pais, porque eles faleceram antes de eu tomar essa atitude. As três primeiras pessoas que ficaram sabendo foram um amigo e meus dois irmãos. Eles me apoiaram. Com minha irmã era mais difícil. Ela é católica e acho que nunca nem me aceitou ainda como gay. Na visão dela sempre foi pecado. Então, foi um processo mais difícil, mas acabou convivendo também.

Como é falar abertamente sobre o assunto? Na verdade, isso não é uma coisa totalmente pública, mas é preciso autoaceitação. Quando você admite isso para você com toda a honestidade, está mais preparado para lidar com isso publicamente. Só que faz parte da minha privacidade. Quando inicio algum relacionamento, às vezes, é um processo difícil de falar, mas acabo falando e isso gera rejeição ou não. Depende muito de cada situação.

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Na sua opinião, como a sociedade foi entendendo a doença? Foi um pouco mais fácil para a opinião pública lidar com a questão da Aids de forma menos preconceituosa, porque inúmeras pessoas famosas do meio artístico foram infectadas pelo HIV. Essas pessoas de alguma forma acabaram dando muita visibilidade à causa. Pessoas do cinema, da moda, da dança, do teatro, da televisão. Isso aconteceu no Brasil, mas também aconteceu no mundo inteiro, em Hollywood, no cinema europeu. Eles eram formadores de opinião e isso ajudou muito o grande público a desmitificar o assunto.

Mesmo com toda essa questão, você nunca sentiu preconceito? No meu círculo de relacionamentos, não. Acho que o problema está na combinação do HIV com a homossexualidade. As pessoas mais homofóbicas acabam sendo mais preconceituosas e tendo medo. A questão não é do HIV em si, mas da própria homofobia da pessoa, que faz com que ela se afaste ou tenha algum preconceito em relação à doença. Afinal, hoje, o HIV passou a ser uma doença crônica. No meu caso, tenho a contagem do vírus indetectável há mais de 20 anos. Não tenho efeito colateral. Nunca desenvolvi nenhuma doença ligada ao HIV.

“Quando recebi a notícia,

foi uma sentença de morte”

Já considerou que sua doença seria um castigo, como pregam alguns fanáticos religiosos? Como essa palavra, não. Mas sei que tudo na vida tem uma relação de causa e efeito. O que houve foi uma causa que me fez contrair o HIV. Quando resolvi me investigar, descobri uma homofobia dentro de mim, eu me sentia menos que os outros por ser homossexual. Uma baixa autoestima existia, embora tentasse disfarçar. Carregava também uma certa culpa por ser diferente. A culpa gera um monte de questões que acabam sendo decorrentes, só que mesmo assim nunca vi isso como um castigo.

O que pesou mais na sua trajetória pessoal: ser homossexual ou soropositivo? No meu caso, estão muito interligados, mas o mais marcante foi a homossexualidade. Eu contraí HIV num único relacionamento que tive sem proteção e foi uma relação homossexual. Já tinha tido até então muitos ex-namorados, sendo que alguns faleceram com HIV. Por conta disso, sempre me senti uma pessoa imune e a relação com penetração nunca foi muito importante para mim.

“Acho que o problema está

na combinação do HIV

com a homossexualidade”

Você era adepto do uso de preservativo? Normalmente, tinha relacionamentos sem penetração. Quando o companheiro fazia muita questão de penetração, eu usava preservativo. Só que dessa vez ninguém usou preservativo. Estávamos contagiados pelo momento e foi. Tudo isso em um carnaval em Florianópolis.

Qual conselho você daria para alguém que acabou de se descobrir portador do vírus? Acho muito difícil dar conselho, porque cada um é diferente. Uns gostam de colocar uma lente de aumento nas suas questões pessoais e examinar tudo, eu sou desse tipo. Outras pessoas preferem não investigar e não lidar com questões que consideram difíceis. Então, isso é muito pessoal. Agora, posso dizer que, para mim, investigar, ir atrás e procurar me informar é algo que só me fez bem. Eu me sinto uma pessoa cheia de vida e acho que minha saúde está ótima como sempre esteve e sempre foi.

*Quer saber mais sobre as imagens

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