O Outro lado das Redes – Michel Laub

Um escândalo das redes sociais

ou só mais um caso que viralizou?

O Tribunal da Quinta-feiraúltimo livro de Michel Laub, conta a história de um publicitário, José Victor, que tem seus e-mails vazados. E-mails que revelavam muito. O que ele pensava sobre sua ex-esposa, detalhes de seu caso adúltero com uma mulher muito mais nova, sua estagiária, e brincadeiras de gosto duvidoso feitas com um amigo soropositivo. A descoberta dessas conversas causa revolta na opinião pública e, em meio a esse caos, o protagonista tenta construir sua defesa.

É uma mensagem clara de que o mundo mudou e os homens já não gozam daquelas liberdades do passado ou uma crítica a inversão de valores promovida pelas redes sociais, na qual a vida privada ganha status de pública? Não faz diferença. O ponto é que as relações estão se transformando e, diante disso, conversamos com Michel Laub, o autor publicado pela Companhia das Letras, para desvendar esse cenário. Ele que é também jornalista e foi editor-chefe da revista Bravo, além de ter sido colunista da Folha de São Paulo e d’O Globo.

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O Tribunal da Quinta-Feira, de Michel Laub, pela Companhia das Letras.

Depois de tudo pelo o que José Victor fez e passou, ele parece de alguma forma feliz no fim do livro. Foi essa sua intenção?  

Muito cedo no processo, eu sempre vi esse livro filtrado pela voz do protagonista. Na verdade, a minha escrita acompanha um pouco o humor desse cara e o fim, de certo modo, tem um tom de final feliz. Mas é irônico, porque ele se deu mal. A vida dele foi toda por água abaixo e ele está tão derrotado naquela hora, que o único bálsamo para o personagem é a namorada, que ele trata como uma santa. Claro que na vida real as pessoas não são assim tanto em relação à ex-mulher quanto em relação à namorada nova. Uma é provavelmente uma megera total por causa da voz dele, muito mais do que na realidade, e a outra é o contrário, é uma santa por causa disso. Eu acho que esse final feliz entra um pouco nisso. Naquele momento, ele acha que vai dar tudo certo, porque ele está desesperado. “Dar certo” e “não dar certo” é uma coisa tão aleatória e, em até seis meses, tudo muda, então, isso não é o objetivo do livro. O objetivo é mais aquele aparente momento de alívio.

“… Essa noção de transparência total, de todo mundo dizer tudo”

A estagiária é uma das poucas personagens que assumem suas responsabilidades e não tem medo da opinião alheia. Ela representa o que você entende pela juventude hoje?

De certo modo, ela pode ser vista como algo que não vivo, mas é uma impressão que eu tenho de alguém com vinte anos. Eles sabem lidar melhor com esse universo do que alguém que tem quarenta e três. A pessoa já cresceu com essa tecnologia, cercada por essa noção de transparência total, de todo mundo dizer tudo. No colégio, os jovens estão acostumadas a ver foto do colega pelado e todo mundo fica sabendo. Tem todos esses possíveis escândalos, em que você sabe o que acontece em todo lugar. Ela tem também consciência de que não fez nada de errado. No máximo, o que aconteceu: alguém falou mal dela e ela sabe que aquilo não tem a menor importância. A Dani só saiu do emprego, porque quis, afinal toda a empresa estava ao seu lado. Ela é nova e aquilo não era fim do mundo.

“Ela nem sabe o que é

o mundo sem isso”

Você disse que a Dani tem mais expertise nesse meio, porque cresceu nele. De uma maneira geral, como você traçaria um panorama sobre as experiências dessa juventude?

Não sei se enxergo com propriedade, porque não tenho filhos e nem tenho essa vivência com gente de vinte anos. A tecnologia, por exemplo, tem lados muito positivos, sempre fui entusiasta de rede social, mas ela está virando um pouco o fio ou sou eu que estou ficando velho e ranzinza. Começo a pensar que as coisas estão ficando mais negativas. Agora, para quem é novo, não. Esse é o mundo dessa pessoa e ela não sabe o que é viver sem isso. Não só a tecnologia facilita, como as coisas ruins vão ter para eles, outros significados do que para mim.

Dá para fazer um paralelo com a geração que pegou a pílula anticoncepcional, nos anos 60, que trouxe a grande vantagem do sexo sem o risco da gravidez. A geração anterior, que olhasse para aquilo e para a juventude daquela época, poderia considerar como o fim do casamento tradicional e que essas coisas fossem algo ruim ou degradante socialmente. Só que você esquece que, para aquela geração mais jovem, não fazia mais sentido o casamento tradicional, ter que escolher alguém aos dezenove anos e ser obrigada a ficar com essa mesma pessoa pelo resto da vida. Essas coisas precisam entrar em um balanço. Vejo [a juventude] muito mais como uma incógnita que está usando as ferramentas da sua época.

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O autor Michel Laub.

Você citou os lados positivos da internet, mas ao mesmo tempo se colocou um pouco desiludido com essas novas tecnologias. Qual é o motivo dessa desilusão?

Para quem é novo, não existe nem como considerar a vida sem isso, agora para quem é da minha época, bem ou mal, foi formado com uma certa noção de intimidade, por exemplo. Tem coisas que me chocam muito de ver serem discutidas na internet, como a esfera íntima das pessoas ser transformada em questão política. É o “modus operandi” da rede social.

Posso citar o caso com o Zé Mayer. É assédio no trabalho, uma coisa que na minha época seria considerado como está sendo hoje. Ele poderia ser condenado, porque é um ator famoso falando com a menina cujo emprego depende dele. Isso é uma coisa! Ás vezes, as pessoas estão julgando a intimidade mesmo, quem namora quem e se isso significa isso ou aquilo. É o que acontece no livro, o José Victor falou tudo aquilo em uma esfera privada e aquilo virou público. Essa pessoa que não é um político, não é o prefeito de São Paulo, não é ninguém que está em uma posição de destaque nesse sentido, da noite para o dia, pode perder o emprego. Essa repercussão, em uma esfera de pessoas comuns, considero bem preocupante. Se acontecesse o mesmo comigo, eu não saberia como me defender. Alguém mais novo seria mais otimista em relação a isso e diria “Ah, daqui a pouco ninguém mais lembra”. Só que ainda tenho aquela noção velha de que as coisas ficam e que tu tem um nome a zelar.

“Você tem condições

de confrontar o poder,

os abusos privados”

Obviamente, não estou querendo discutir com você, mas isso tem também seu lado positivo. Concorda?

A história anda, né?! Não adianta se queixar. As coisas não vão voltar a ser o que elas eram. Tem seu lado positivo, sim. É o lado de que você tem condições de confrontar o poder, os abusos privados. Mas em algum ponto vai ter que se achar ou um meio-termo ou uma regulação social mesmo. Tem gente que passa o dia inteiro linchando os outros com argumentos da esfera pessoal. E essa pessoa tem que, de algum modo, ser constrangida, porque ela não pode fazer isso. É esse tipo de etiqueta que espero que se desenvolva na internet do futuro. Eu não gosto do Donald Trump, mas não é razoável que alguém passe o dia inteiro publicando uma notícia afirmando que o cara roubou…E se o cara não roubou? É preciso que exista uma certa noção de que para tudo tem sua medida certa e as informações precisam ser checadas.

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Outros livros de Michel Laub, A Maça Envenenada e Diário da Queda.

Você tem citado muito o aspecto da tolerância. Esse último livro fala sobre isso e também o “Diário da Queda”, que passa a integrar a lista obrigatória de livros para o vestibular da UFRGS. Qual a importância desse discurso hoje?

Não acredito muito que a literatura possa mudar o mundo e, muito menos, os meus livros, que são livros de literatura brasileira contemporânea. Mas, sim, o leitor, individualmente. Um leitor a cada dez, a cada cinquenta, possa, não só por causa do livro, mas que o livro o ajude a ter essa noção de que as coisas não são tão simples quanto elas parecem. Se há uma função na literatura, é a de mostrar como as coisas são mais complexas do que parecem. Não é aceitar tudo também, porque não é assim que a vida funciona. Você tem seus valores, tem coisas que se chocam com eles e não tem a menor chance de conciliação. Só que de algum modo, é feito um esforço para entender aquilo, nem que seja para dar mais armas para se rejeitar depois. Nesse processo, a literatura pode ajudar e isso é também um tipo de tolerância.

“…Existe uma trajetória

para que ele chegue até ali”

Em uma outra entrevista para a Brasileiros, foi dito que seus personagens narram coisas do passado para descobrirem quem são. É uma terapia que você propõe na sua literatura?

Fiz psicanálise, não fui muito adiante e depois tentei de novo… A psicanálise é um pouco esse vai e vem. O processo de autodescoberta, que é elaborar o que você está sentido no momento, é também assim. Você não consegue conceber um pensamento puro, elabora a partir de fatos que se relacionam com aquilo que você está sentindo. Na literatura, não adianta colocar o cara em um divã pensando na vida que não funciona. Literatura é história. Falar do passado é a maneira, como eu consigo traçar um perfil daquele cara no presente. Não adianta esse cara começar o livro dizendo “eu acho isso ou aquilo”, aí é só opinião. É muito mais eficiente mostrar que existe uma trajetória para que ele chegue até ali.

É mesmo caso das redes sociais. Quando você vê um escândalo na rede, estão ali dois personagens e a única coisa que você tem é a postagem que aparece na sua tela. Isso é o que a gente vê todo dia, mas como que a literatura pode estar presente nisso? Ela pega esse personagem que escreve e o outro que é o alvo, mostrando a história dos dois, do passado deles até o momento em que chegaram ali. Isso é a compreensão de que eu estava falando, do segundo olhar. Se eu assistir um debate entre o Jean Willys e o Bolsonaro, verei os dois e o que eles representam na política. Só que a literatura pode mostrar a infância do Bolsonaro, para você entender como o cara chegou ao ponto de pensar daquele jeito. Essas duas figuras são, provavelmente, de lugares diferentes do Brasil e tiveram trajetórias completamente diferentes, até que em um momento político do país elas se chocaram. Esse choque delas é importante para os rumos do país.

A literatura é um pouco isso que a rede muito dificilmente dá e o jornalismo, eventualmente, poderia apresentar. O jornalismo também não entra no íntimo de um personagem, como a literatura pode. Até porque literatura é ficção, ela pode inventar à vontade e o jornalismo, não. Ele não entra na vida sexual da pessoa, a não ser que a pessoa conte ou outras pessoas contem. O repórter não está lá assistindo a pessoa transar, já ela sim. A literatura pode estar em vários níveis íntimos análogos a esse, como a questão moral, a questão política, dos pensamento, dos afetos das pessoas. Essas são as armas que a literatura tem e que nenhuma outra linguagem possui. 

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O escritor pelas lentes de Guilherme Pupo.

Você acabou de citar a atividade jornalística, mas como você enxerga, no meio de toda essa revolução das mídias sociais, o futuro do jornalismo?

Eu lamento muito porque eu sou jornalista e adoraria que a gente tivesse o cenário de vinte anos atrás. Hoje, com quarenta e três anos, eu ia estar chefiando alguma redação ou em um cargo importante, porque tive uma trajetória boa na área. Talvez, para minha vida pessoal fosse melhor em um sentido, em outro, talvez, eu não tivesse seguido a carreira literária… Coisas da vida.

Tirando um pouco do meu caso em particular, por um lado, lamento muito que esse jornalismo tradicional que a gente conhece esteja terminando. Com todos os defeitos dele, preferia que ele fosse reformado do que extinto e esse é o lado negativo. Agora, para o lado positivo estão surgindo outras possibilidades com a internet. As coisas não vão ter mais a centralidade que elas tinham há vinte anos atrás. No Brasil, a informação era detida por quatro jornais impressos mais uma ou duas televisões e mais três ou quatro rádios.

“O cara do Facebook

pode ter a dele também”

Agora, tem muito mais oportunidades, só que a voz de quem está em cada um desses pequenos veículos tem menos alcance do que tinha. De novo, é uma questão geracional, a nova geração talvez não queira uma voz central dizendo o que ela tem que fazer ou não. Ela quer ter a oportunidade de ter várias fontes. E se essa pulverização conseguir meios de se sustentar, que é a coisa mais difícil e não se encontrou ainda, vou achar bastante positivo.

Eu já fui mais otimista com essa situação do jornalismo. Uma coisa é o jornalismo analítico, que é você ter gente na redação para analisar notícias, como a Agência Lupa está fazendo com números. Isso é legal. Você pega a notícia de um político falando alguma coisa e eles vão checar para ver se é verdade. Já a opinião em si, dizer o que eu acho ou deixo de achar do Geraldo Alckmin ou do Lula é só mais uma opinião. É engraçado que, às vezes, as pessoas se aproveitam um pouco de autoridade, porque elas são artistas, aparecem na TV, mas no fundo é só uma pessoa falando. A tendência disso, no futuro, é se pulverizar muito, porque nas redes sociais todo mundo já está fazendo a mesma coisa e não adianta o decano, o comunista, o político do jornal dizer algo. Tudo bem, ele tem um pouco mais de fontes, mas se não é informação, é só opinião. O cara do Facebook pode ter a dele também. O modo como a gente vê isso, grandes colunistas que são pagos para falar, não sei se sobrevive no futuro, não da maneira como a gente vê hoje.

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