Memória e Resistência – Praça Vladimir Herzog

Em comemoração aos 80 anos de nascimento de Vladimir Herzog, no último sábado (24), a velha guarda do jornalismo, que resistiu à ditadura militar, comemorou à vida na praça que leva o mesmo nome do homenageado. Ali, atrás da Câmara Municipal de São Paulo, entre a rua Santo Antônio e a Praça da Bandeira, estavam a esposa Clarice Herzog, o teólogo Leonardo Boff e os jornalistas Audálio Dantas e Sérgio Gomes. Além de outras personalidades que carregam também na memória os tristes acontecimentos dos anos de chumbo.

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Vladimir Herzog em ação // Images cedidas pelo Instituto Vladimir Herzog.

Antes mesmo dos episódios do dia e da história da praça, vem a vida do próprio personagem. Vladimir Herzog era filho de judeus e, desde seus primeiros anos, enfrentou um regime fascista. Por causa do nazismo, o menino Herzog, nascido em 27 de junho de 1937, muda-se da Bósnia, país em que nasceu, para a Croácia. Mais tarde, sua família parte para à Eslovênia e depois para à Itália. E, só aos nove anos, em 1946, que Vladimir chega ao Brasil e, em São Paulo, encontra um lugar para chamar de casa.

Com 22 anos, Herzog começa sua carreira numa das profissões mais perseguidas pela censura, o jornalismo, e nessa época é repórter d’O Estado de São Paulo. Logo, desperta nele o interesse por cinema e, assim, inicia a produção de pequenos documentários, que o levam a trabalhar por um curto período de tempo na TV Excelsior. Em paralelo a sua carreira, no ano de 1964, os militares assumem o controle do país e as tensões políticas começam a preocupar. Nesse cenário, Vladimir e sua esposa, Clarice, mudam-se para Londres e, lá, ele trabalha na BBC. Depois do AI-5 ter sido promulgado, o casal retorna ao Brasil, mas o ato institucional não o impede de reassumir sua profissão, agora, na Revista Visão, com posições contrárias ao sistema. E, na década de 1970, Vladimir passa a lecionar aulas na USP e assume também a direção do telejornalismo da TV Cultura, o que inclui o revolucionário programa “Hora da Notícia”.

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A infância de Herzog // Images cedidas pelo Instituto Vladimir Herzog.

É também na TV Cultura que encerram a carreira de Herzog. No dia 24 de outubro de 1975, o jornalista foi procurado, em seu trabalho, por dois agentes do DOI-CODI, órgão subordinado ao exército brasileiro que realizava serviços de inteligência e repressão ao governo, para que prestasse depoimento sobre suas supostas ligações com o PCB. No dia seguinte, Vladimir se apresenta às 8 horas da manhã e nunca mais é visto com vida. Ele é torturado, os maus-tratos resultam em sua morte e, para não assumirem as responsabilidades pelo crime, os agentes forjam uma cena grotesca de suicídio.

A notícia desse suposto “suicídio”, por enforcamento, chega às redações acompanhada de fotos que mostravam seu corpo, em um uniforme, com a cabeça pendida para o lado e amarrada por um cinto preso nas grades da pequena janela da sala. No entanto, suas pernas estão dobradas no chão, o que impossibilitava o suicídio. Assim, a tentativa dos agentes de encobertar o crime fracassa e termina como um dos catalizadores do retorno à democracia. Os acontecimentos do dia 25 de outubro de 1975, reagruparam diversos setores da sociedade e promoveram uma das primeiras reações populares contra os excessos dos militares.

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O quadro 25 de Outubro, de Elias Andreato, e a reprodução em forma de mosaico.

“A Esperança tem duas filhas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las e avançar. Nos vivemos, hoje, uma situação que está se assemelhando à época da ditadura, não é a mesma, mas caminhamos para um estado de exceção. Está passando, um pouco, o tempo da indignação e de não aceitarmos o que está aí. Nós devemos entrar para o tempo da coragem, encher as praças, encher as ruas, fazer manifestações para cobrar a mudança“. É com esse discurso encorajador e parafraseando Santo Agostinho que o teólogo Leonardo Boff fala aos presentes.

Para o pensador, o assassinato de Vladimir Herzog não deve ser esquecido junto com tudo o que aconteceu naqueles tempos e, isso, só será possível com a coragem do presente, o que não significa, de forma alguma, medo e apreensão. Deste modo, o evento de sábado foi muito mais uma celebração à vida e à memória daqueles que lutaram pela democracia, do que a recordação de um passado triste.

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Toninho Carrasqueria e Emiliano Castro tocam // Imagem cedidas por OBORÉ Projetos Especiais.

Para além dos discursos políticos, a reunião de amigos ou, no mínimo, de simpatizantes contou com a música de Toninho Carrasqueria e Emiliano Castro. Entre os arranjos e canções apresentados, estava “O Bêbado e o Equilibrista”, letra composta por Aldir Blanc e João Bosco, eternizada por Elis Regina, em 1979. A canção, nesse contexto, ganha ainda mais significado apresentada diante de Clarice Herzog, uma das vítimas da ditadura e uma das homenageadas pela obra, nos seguintes versos: “Chora // A nossa Pátria mãe gentil // Choram Marias e Clarisses // No solo do Brasil”. Um pequeno trecho da música, pode ser encontrada aqui.

Palco dessas manifestações foi a parte de trás da recém-inaugurada “Banca Jornalista Vladimir Herzog”, que para o evento foi customizado com fragmentos de uma HQ italiana. A história em quadrinhos reconta a trajetória desse símbolo de resistência, desenhada por  Alberto Rizzi, Giovanni Battistin, Ivan Grozny e Marco Bellotto. A praça também conta com uma escultura, em bronze, que é uma reprodução da obra Vlado Vitorioso, do artista Elifas Andreato, elaborada para um prêmio das Nações Unidas (ONU), em 2008. E um mosaico feito por crianças, inspirado no quadro “25 de Outubro”, também de autoria de Andreato, que recompõe a cena do assassinato de Herzog, a partir de fotos do IML.

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A praça Vladimir Herzog.

No futuro, a praça pretende abrigar também o nome de todos aqueles 1.004 jornalistas que assinaram o manifesto “Em nome da Verdade”, em 1976, que contestava publicamente a versão oficial de suicídio do Herzog e exigia o esclarecimento dos fatos que ocasionaram sua morte. Por enquanto, o espaço se destaca mais por seu valor simbólico, do que estético. É uma área com pouca vegetação e marcada pelo concreto cinza, a exceção de aparelhos de ginástica, brinquedos coloridos e os monumentos já mencionados.

No entanto, seu futuro pretende ser outro, muito mais vivo e colorido, se o nosso tempo o permitir. O ganho dessa outra dimensão para a praça com um grafite do artista Eduardo Kobra e o planejamento arquitetônico da Escola da Cidade, por exemplo, só será possível com a preservação da memória viva de Vladimir Herzog, um jornalista que lutou contra o que julgava inadequado com a palavra e de forma pacífica, mas que, independente disso, foi mais uma das vítimas do regime militar.

P.S.: O caminho, por mais tortuoso que for, aparenta ser positivo com Corte Interamericana de Direitos Humanos julgando caso Vladimir Herzog.

 

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