Para além das janelas do Jardim Edite

Das janelas do décimo quinto andar do Jardim Edite, contempla-se a extensão do rio Pinheiros, os prédios da Berrini e a ponte Octávio Frias de Oliveira, mais conhecida como ponte estaiada, um dos novos cartões postais de São Paulo. É a vista inversa que se tem do interior do Shopping Cidade Jardim e de suas maisons de luxo. Faz sentido pensar que esse privilégio pertença a uma moradia de classe média alta, tão comum a região, mas, na verdade, é parte de um projeto incomum de verticalização da antiga comunidade do lugar para o, agora, Conjunto Habitacional Jardim Edite.

A habitação popular, projetada pelo escritório de arquitetura MMBB, consiste em três prédios de apartamentos com quinze andares e dois outros blocos, mais baixos, com sete andares. São 252 unidades habitacionais, cada qual com 50 m2, que abrigam 180 famílias. Ali também coexistem uma creche, uma UBS (unidade básica de saúde) e um restaurante-escola, ainda não inaugurado.

Esse espaço se traduz em mais do que a simples transposição de uma favela, mas em um outro conceito para moradias populares, voltado para o coletivo e para o bem-estar de seus moradores, segundo Ciro Pirondi, urbanista e diretor da Escola da Cidade. Ainda mais quando esse projeto é desenvolvido em uma região considerada como o novo centro financeiro de uma das maiores cidades do mundo, entre as avenidas Engenheiro Luís Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho, no Brooklyn.

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A Ponte Estaiada e uma torre do Conjunto Habitacional.

 

UMA REALIDADE ATÍPICA. O caso do Conjunto Habitacional Jardim Edite é uma exceção no cenário brasileiro de moradias populares, onde os empreendimentos são distantes do centro e, consequentemente, do trabalho das pessoas. No entanto, deveria ser regra que essas habitações também fossem desenvolvidas a partir de uma infraestrutura básica, que garanta a dignidade de seus moradores e não os faça, por exemplo, passar mais de quatro horas no trânsito, diariamente. O Arquiteto Pirondi conclui que “esses são erros históricos que temos dificuldade em enfrentar e, caso nada seja feito, a cidade caminhará para uma rota de colisão”.

Mesmo não sendo os ideias, o número de imóveis periféricos disponíveis por meio de programas sociais é ainda muito menor que o necessário para suprimir a demanda por moradia na sociedade. Independente desse ser um direito que deve ser promovido irrestritamente, segundo o Artigo XIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa utopia não se reflete em São Paulo que é “o único estado [brasileiro] cuja necessidade de novas unidades habitacionais ultrapassa um milhão de moradias”, segundo dados do Déficit Habitacional de 2013-2014 da Fundação João Pinheiro. E, para sanar a situação, seriam necessárias 1,327 milhões de novas moradias, sendo que 47,1% desse número se referem apenas a região metropolitana de São Paulo. Tal porcentagem equivale a 625.759 moradias precárias.

É preciso entender também que o termo déficit habitacional se refere às deficiências do estoque de moradias, o que inclui aquelas sem condições de serem habitadas por precariedade das construções, mas também os moradores de baixa renda com dificuldades de pagar aluguel e aqueles que vivem em casas alugados com um número acima do recomendável de moradores no mesmo imóvel. Já, no caso da comunidade Jardim Edite, os moradores se encontravam no primeiro caso mencionado.

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Imagens da Comunidade Jardim Edite, cedidas pela Associação de Moradores.

UM PASSADO NEM TÃO DISTANTE. Rosalino dos Santos, porteiro e morador do Conjunto, conta, enquanto levava sua mãe de mais de 90 anos tomar seu banho de Sol diário, que parte da comunidade era constituída com casas inteiras de bloco e a outra metade era mista, com alguns cômodos de bloco e outros de madeira. Mas o maior problema era o fato do terreno não ser plano, em decorrência do entulho que se acumulou no lugar. Por isso, parte das moradias foram construídas em cima da sujeira e do lixo, piorando ainda mais a situação já delicada do lugar.

Entretanto a história da ocupação não fora sempre assim. Uma parcela significativa dos moradores já residia na região nos anos 60, quando a área era um extenso matagal, cercada por chácaras, que acompanhavam o córrego Água Espraiada. A precarização da situação dessas famílias foi gradativa e, em grande parte, impulsionada pela construção da avenida engenheiro Luís Carlos Berrini. Com as obras, parte dos antigos ocupantes foram removidos de seus lares e, sem terem para onde ir, agruparam-se nas proximidades, onde se originou à comunidade Jardim Edite e, que mais tarde, construiu-se o Conjunto Habitacional.

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Vista de parte dos apartamentos funcionais de 50 m2.

A partir dessa nova formação, os moradores que permaneceram no local iniciaram seu movimento de resistência, principalmente, sob a liderança de Gerôncio Henrique Neto, o presidente anterior da associação de moradores. No entanto, situação só começa a se estabilizar, em 2002, quando na Gestão de Marta Suplicy, a região é demarcada como ZEIS, ou seja, um terreno que deveria servir para habitações de interesse social. Mas até o começo das entregas dos apartamentos na Administração Kassab, em 2012, a área foi desmarcada, como ZEIS, três vezes e a comunidade enfrentou dois incêndios, cujas causas são desconhecidas.

Entre as idas e vindas do processo, muitas famílias decidiram deixar o local e aceitaram outras propostas da prefeitura, como ir para Estevão Baião, Campo Limpo ou retornarem para seus estados de origem.  Quando questionado o porquê de permanecer na região, Rosalino afirma: “Eu não teria condições de levar a vida que tenho hoje, com terminal de ônibus do lado, um postinho e segurança, senão fosse o projeto”.

Só as grades da lavanderia o incomodam hoje em dia. “Aquilo me lembra a favela de novo, principalmente, a imagem dos panos estendidos. Toda nossa história volta e não gosto disso”. Afinal, aquele passado não combina mais com o bairro em que vive e que, muito provavelmente, foi o cenário de muitos sonhos e anseios, durante processo de construção.

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Rosalino e sua mãe e, ao lado, José Vilson.

UM NOVO COMEÇO. Hoje, os moradores comemoram que, ao lado do conjunto, estão finalizando outra obra de habitação popular, o Jardim Edite II. O novo prédio irá abrigar parte das famílias que não conseguiram suas residências no processo anterior. Mas, mesmo com esse avanço e outras conquistas, a luta deles continua pelo funcionamento do restaurante-escola, por exemplo. O “Mistura e Sabores Edith” tinha como proposta ensinar os residentes do prédio à cozinharem numa espécie de curso profissionalizante e os pratos, por eles, elaborados seriam comercializados. Dessa forma, pretendia-se atrair os funcionários da Berrini e fomentar uma maior integração do complexo com o seu entorno.

Para além de São Paulo, a construção do Conjunto Habitacional Jardim Edite ganha relevância também para o mundo. A história deles, de uma antiga favela que é, agora, uma moradia popular modelo, esteve na Bienal de Veneza, em 2016. Orgulhoso de sua trajetória José Vilson, proprietário de um bar em Paraisópolis e atual presidente da associação de moradores, diz que: “Era preciso travar essa batalha. Nós fincamos nossas raízes aqui e não tínhamos porque ir para outro lugar”.

Com José Vilson, subo até o seu apartamento no décimo quinto andar e, de lá, ele recorda de sua história. Quando, nos anos 90, ele veio da Bahia direto para à comunidade e, em São Paulo, começou a trabalhar como vendedor de tecidos. E, de lá, ele também rememora todas as mudanças pelas quais aquele terreno já passou, inclusive aponta com o dedo e com uma voz emocionada, o lugar onde ele abriu seu primeiro estabelecimento. “Era um bar de lona, onde o pessoal da comunidade se reunia de domingo e a gente tocava um forró gostoso”. E, agora, é mais uma das partes daquele grande sonho coletivo, o Conjunto Habitacional Jardim Edite.

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