Vou dançar enquanto puder – Ruben Terranova

Coordenador e professor do curso técnico de dança do Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, Ruben Terranova é convidado para uma grande empreitada na Ásia e coreografa o espetáculo próprio, Contrastes, com os bailarinos do Ballet de Astana, no Cazaquistão. E, depois de muitas experiências vividas e um enorme aprendizado, o bailarino compartilha suas histórias com o seu inconfundível (e charmoso) sotaque espanhol.

Os contrastes daquele país que, só no começo dos anos 90 declara independência a União Soviética, surpreendem com sua agitada cena cultural e o apoio às artes. A coreografia de Terranova foi apresentada para mais de 2.500 pessoas e, em breve, percorrerá todo o continente Europeu. Para ele, que jamais pensou em ir ao continente, tudo aquilo foi um sonho. Um grande sonho de um argentino que começou sua carreira atuando em musicais, na cidade de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que trabalhava como funcionário público para pagar as contas.

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O coreógrafo Ruben Terranova, no Ballet de Astana.

 

Como soube que o Ballet de Astana estava procurando um coreógrafo? 

Tenho um ex-aluno meu, o Ricardo Amarante, que apresentou um trabalho na Ópera de Astana e, depois, foi convidado a montar um ballet graças o sucesso da montagem. Só que esse ballet também foi outro sucesso. Assim, Ricardo terminou contratado como coreógrafo estável da companhia. Aí, ele soube que procuravam alguém para trabalhar com dança moderna e me avisou. Fiz um clip com minhas coreografias mais importantes e enviei. No dia 16 de janeiro, recebi um telefonema dele avisando que tinha sido selecionado e que, em breve, receberia uma carta convite para ser coreógrafo do Ballet de Astana.

“Muitas vezes,

fiquei nervoso comigo mesmo,

porque não conseguia me expressar”

Quais inspirações você buscou para a coreografia que apresentou?

O ponto de partida foram os extremos. Já tinha feito uma coreografia há muito tempo que conquistou grande destaque nos festivais aqui no Brasil e o Ricardo era apaixonado por ela. Ele queria que eu remontasse um trecho específico dessa coreografia, em Astana, que durava oito minutos e desenvolvesse o restante. Então, com base nessa ideia de extremos que lá no Cazaquistão, na língua russa, é entendido mais como um contraste de coisas, comecei a montar o espetáculo. Era a ideia de elementos que se contrastam. O contrastes dos sons, como uma música ser totalmente diferente da outra. A sombra, apagando a luz ou adicionando muito mais luminosidade em cena. E o que é real e o que é sonho.  Fiz um quadro igual a nossa vida, que é totalmente contrastante. Um dia não é igual ao outro, a manhã não é igual a tarde, só para citar as horas dos dias. Nisso entram também as cores, porque há dias cinzas, mais para baixo, mas, mesmo assim, tudo pode continuar colorido. As coisas dependem muito mais do jeito que você quer ver a vida e da forma com a qual você a enfrenta. A vida é um estar colorido totalmente.

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Imagem da coreografia Contrastes, por @asxatographer.

Como foi o processo com os bailarinos? Você selecionou eles ou eram um grupo pronto?

Olha, a companhia tem 50 bailarinos e eu tive que escolher só 25 deles. Até fico emocionado, porque foi muito difícil. É muito complicado você ver na sua frente 50 bailarinos profissionais, todos perfeitos, bonitos, e fazer essa seleção. Para mim, você escolhe uma roupa por gosto. Escolhe um lugar para sair, porque quer. Mas escolher uma pessoa por seu trabalho? Poxa, é complicado. Busquei a maior empatia comigo, com meu método e a homogeneidade do movimento para trabalhar com bailarinos que estivem mais próximos do que iríamos montar. Mas todos eram tão bons, que dava pena de separá-los. Só não escolhi as duas primeiras bailarinas, os dois primeiros bailarinos, os solistas que já eram escolhas da direção.

“No Brasil, 

os poucos que trabalham 

com arte são vitoriosos”

Mesmo com esses bailarinos tão bem treinados, imagino que tenha enfrentado algumas dificuldades. Quais foram?

Dificuldade mesmo não tive, o que tive, sim, foi muito trabalho. Embora eles fossem profissionais, nunca tinham dançando algo como a minha coreografia. Os bailarinos dançavam ballet clássico e eu sou da escola moderna. Então, foi um aprendizado mútuo, mas em outra língua [risos]. Eu falando o meu inglês, que não é aquelas coisas, e eles falando o russo. Tinha um intérprete e, com ele, eu podia falar tanto em português quanto em inglês, dependia do que era mais fácil para entender. A comunicação no começo foi difícil, mas, aos poucos, foi fluindo. No meio disso, muitas vezes, fiquei nervoso comigo mesmo, porque não conseguia me expressar.

Qual foi a principal diferença entre esses bailarinos de Astana e os bailarinos brasileiros com os quais você trabalha?

No Brasil, trabalho dando aulas para escolas de dança, mas também já coreografei para companhias independentes, que não se comparam a um corpo de baile profissional. Aqui, é muito diferente e é difícil você entrar para uma companhia. Sei que trabalho com alunos e que existe uma grande diferença entre alguém que você está formando e um profissional. Eles são profissionais por quê? Porque atingiram um certo nível técnico e vivem disso. Por exemplo, eu ensaiava com eles sete horas por dia, mas esses bailarinos trabalhavam oito horas e meia todo dia. Antes de mim, eles tinham sempre uma aula de ballet clássico. É muito comprometimento, um ótimo físico. No fim, são duas coisas que você não consegue comparar.

 “Você vai trabalhar para viver,

mas vai, sim, viver

e esse é o melhor caminho”

Você disse que só trabalha com alunos. Então, o que é preciso para esses alunos construírem uma carreira de sucesso?

Aqui, a realidade é muito diferente. Nós passamos por muitos momentos difíceis e ainda não aprendemos a apoiar a cultura. O fato de não apoiarem a cultura te desmotiva. O campo de trabalho é restrito. Você precisa trabalhar muito e ter uma família que te apoie. Como digo para várias pessoas, no Brasil, com todas as dificuldades que temos, os poucos que trabalham com arte são vitoriosos. Aqui, na dança, no teatro, na música é necessário muito amor. O estado não ajuda em nada e eu estou voltando de um país que mostra que tudo isso é possível, sem a corrupção. O Cazaquistão é um país novo, com 25 anos, mas que é culturalmente é maravilhoso. Tudo é financiado pelo governo, os bailarinos ganham salário e a própria companhia dá a moradia, os únicos gastos são com alimentação e internet. Você vê que é possível e é muito triste, quando se volta para a nossa situação socioeconômica e cultural. Não temos nada! E, isso dói um pouco.

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Imagens do Ballet de Astana, no Cazaquistão.

Mas qual é a mensagem positiva que você pode dar para um bailarino que está começando a vida?

O que eu posso dizer para eles é que estudem. Tenham muita força de vontade e acreditem naquilo que realmente querem. É preciso muito comprometimento para se tornar um profissional. Se não chegar a ser um bailarino de uma companhia, que seja um ótimo professor ou coreógrafo. A mensagem que eu deixo é que eu vivo de dança desde os 20 anos. E, é possível, sim, trabalhar com dança. É sempre querer ser o melhor ou pelo menos ter essa ambição e continuar trabalhando, lutando, embora apareça mil obstáculos. Batalho até hoje com meus 65 anos.

Às vezes, penso: ‘Poxa, por que tudo isso, em Astana, não chegou antes?’ E, aí refletindo, concordo que tudo chegou no momento certo de minha vida, para não me deixar abandonar as coisas. Vou continuar dançando enquanto puder. E, se Deus quiser, deixei minhas sementinhas plantadas lá na Ásia, meu ballet vai percorrer a Europa toda, em setembro, e espero que venham outras oportunidades. Mas o que eu quero dizer com tudo isso? Que a gente nunca sabe o que pode vir pela frente e, se você continuar trabalhando, em algum momento, a oportunidade boa chega. Você vai trabalhar para viver, mas vai, sim, viver e esse é o  melhor caminho.

 

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