Versos de uma Tradução – Caetano Galindo

James Joyce, Charles Darwin, Bob Dylan, Lou Reed, David Foster Wallace, Ian McEwan, Nate DiMeo, … O que todas essas personalidades têm em comum, além de fama e reconhecimento público? Já adianto que não é um Nobel de Literatura e nem romances com mais de 1.000 páginas. No entanto, todos os autores citados foram traduzidos para o português por Caetano W. Galindo, o tradutor que é também doutor em linguística pela USP e professor na UFPR.

Como se todo esse repertorio já não fosse justificativa para uma boa conversa (via e-mail, infelizmente), Caetano acaba de lançar mais uma tradução, “O Palácio da Memória”, pela estreante editora Todavia. A empreitada é mais do que uma simples tradução, porque o livro, mesmo, não existia. A matéria-prima da obra, em português, foi uma série de podcasts feitos por Mate DiMeo, em inglês, conhecidos como “The Memory Palace”.  Ali estão histórias como a de uma jovem imigrante italiana, recém chegada a Nova York, que se apaixona à primeira vista por um guerreiro zulu. Bastante inusitado, né?! E, para além dessa seleção, foi preciso adaptar o idioma, mas também o formato do áudio para a escrita. E, para descobrir mais sobre esse processo, continue com nossa entrevista.

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Retrato de Caetano por Kate Griffin.

Como você chegou ao projeto do livro “O Palácio da Memória”? Já conhecia o podcast americano?

A resposta já está no posfácio do livro e também numa conversa minha, em inglês, que tive com o Nate DiMeo [autor do podcast] e Helen Zaltzman. Mas, resumo: Conheci o podcast e me encantei por ele. Logo, fui assolado pelo desejo de ‘posse’ que é bem comum entre tradutores. Eu queria ‘escrever’ aqueles textos e, aí, enviei ao Nate uma proposta para fazer o livro em português.

Quais foram as maiores dificuldades em traduzir um áudio em inglês para o português escrito?

O fundamental mesmo foi o ritmo e a condução da leitura do Nate [autor do podcast]. Queria transpor pro leitor brasileiro a sensação de estar acompanhando a leitura do inglês. Os exemplos estão por toda a obra. Na medida em que eles se referem, especialmente, à pontuação e à paragrafação, que foram estabelecidas muito mais em função desse ritmo de leitura, dessa ‘apresentação’ que ele faz do texto, do que em função das regras normais de sintaxe e de estilo. O desafio era esse: produzir um texto que pudesse ser aceito como ‘escrito’ em português, mas que mantivesse certas características dessa ‘respiração’ do original, em inglês.

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Uma tradução de Ulysses ao lado da mais nova “tradução”.

E como funcionou essa tradução para você? Quais foram as etapas de trabalho desde o momento que você começou até a entrega final?

Já escrevi um texto sobre minhas outras traduções e, ali, está a resposta em grande medida. A diferença fundamental, no caso do “Palácio da Memória”, foi que, primeiro, tive que fazer uma seleção dos textos. Afinal, esse livro a gente estava INVENTANDO a partir de mais de 100 podcasts que, na época, já estavam disponíveis. Aí, eu sentava, de fone de ouvido e ia digitando a minha primeira versão. Outra diferença é que, no caso desse livro, a segunda versão pode até ter sido mais trabalhosa que o normal, porque envolvia uma tentativa de leitura, em voz alta, de todos os textos.

Para além dessa tradução, você tem inúmeras outras no seu currículo. Então, pergunto se você considera o livro traduzido como sendo o mesmo escrito na sua língua original?

Nesse caso, ele não é o mesmo pela simples razão de que não existia um livro original. Foi uma situação bem atípica, em que de fato a tradução criou um livro. Mas eu sempre insisto em dizer que, sim, em todos os sentidos que de fato interessam ao leitor, a tradução é “a mesma coisa”, o mesmo livro que o original.

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E Caetano também traduz canções como as Bob Dylan e Lou Reed.

Imagino, que se mistura a voz do autor da obra e a do tradutor na obra final. Assim, o que se forma não seria um novo livro?

Sim. É um livro novo, mas apenas na medida em que toda leitura também é nova. No caso da tradução, acrescenta-se, claro, a troca de idioma. No entanto, continuo achando que a melhor comparação é entre o tradutor literário e o intérprete de música clássica. Cada pianista que toca uma sonata de Beethoven se mistura, sim, ao autor e fornece ao seu público uma versão ‘nova’ da peça. Mas, aí, a se dizer que o ouvinte está perdendo acesso à peça ‘de verdade’ vai uma distância muito grande e também certa idealização do ‘original’….

Você fala de uma idealização do original, o que isso significa?

A questão é que às vezes as pessoas tratam a ideia do ‘original’ em literatura como se deve tratar o original em artes plásticas, onde uma reprodução é sempre ‘cópia’ e necessariamente inferior. Eu tenho pra mim que o original literário pode ter mais a ver com o original da música clássica, por exemplo, onde a reprodução é a ‘execução’, a ‘interpretação’, que, longe de ‘diminuir a aura’ do original, como queria o Walter Benjamin, o mantém vivo e produtivo. Literatura existe em cópia, em reprodução. A gente muda capa, fonte, projeto gráfico, ortografia de Dom Casmurro e ele continua sendo Dom Casmurro. Uma tradução, assim, é só um passo, reconhecidamente bem maior, bem mais radical, nessa mesma direção.

[ALERTA PARA

RESPOSTÃO INTERESSANTE]

Levando essa questão entre o original e a tradução, para um aspecto mais prático. As línguas faladas tratam sempre do mesmo objeto, quando ele existe naquela cultura, e o que varia é a forma como se expressam, por isso pouco importa ser uma tradução ou o original?

Não é bem assim. Acho essa definição que você deu é a que mais facilmente explica a tradução, mas também é a que tende a gerar os discursos de intraduzibilidade a partir do momento, em que aquele “quando ele existe naquela cultura” começa a se verificar problemático. Deixa ver se eu me explico melhor. Há uma noção de comunicação em que existe ‘conteúdo’ e ‘expressão’. E, nessa visão, a tradução seria alterar a ‘expressão’ e manter o conteúdo. Essa ideia embasa vários conceitos de senso-comum, de ‘erros’ de tradução, de tradução ‘perfeita’ e de ‘traição’ quando a equivalência se desfaz.

O original de um romance

é um enunciado irrepetível?

É interessante notar que isso acaba considerando menos importante o enunciado, a frase, o livro original, certo? Já que o mais importante, o que garante o sucesso, é o tal ‘conteúdo’. As mesmas pessoas que, portanto, falam isso, sem querer parecem apontar pro fato de que o ‘texto’, a forma do texto, é algo secundário desde o original. Eu, por outro lado, tendo a subscrever a um tipo de análise linguística, da qual um dos maiores expoentes é Bakhtin, que em vez de ver essa separação entre superfície e fundo, meio que assume que existe apenas superfície. E que, sem aquela ‘estabilidade’ por trás do enunciado, a linguagem está o tempo todo se construindo e se constituindo numa espécie de jogo de regras flexíveis, continuamente calibradas pelos participantes.

Assim, a superfície do texto é o que eu tenho, ok, mas, ao mesmo tempo, tenho que admitir que a cada vez que mudam os participantes do jogo, o jogo inteiro muda. Logo, não há estabilidade, não há permanência. Eu não posso, como diria o Bakhtin, dizer a mesma palavra duas vezes, porque o mero fato de eu repetir já faz com que a segunda ocorrência seja outra coisa. É uma total impermanência. E daí, nesse caso, é que eu posso falar de uma sobrevalorização do original. Porque, visto assim, o original de um romance é um enunciado irrepetível, como todos, mas que pode ser permanentemente reenunciado, de maneira válida. Para uma visão como essa, a segunda edição de um romance, a segunda leitura de um mesmo leitor, uma leitura 10 anos depois, uma tradução, todas essas coisas são novas iterações, novas interpretações, novas traduções.

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