O Peixe que Morre pela Boca – CEAGESP

Uma visita à Ceagesp reserva muitas histórias. O espaço que pelo qual circulam 50 mil pessoas e 12 mil veículos diariamente é muito mais do que um dos maiores polos de distribuição de São Paulo. É um mundo que exige sacrifícios próprios tanto para os comerciantes quanto para os compradores. E, acreditem, existem muito mais sutilizes e nuances do que a simples logística de atravessar produtos do campo até a cidade. 

 

Numa madrugada, em um ônibus a princípio vazio e com os termômetros de rua marcando 10°C, confirma-se uma das máximas da cidade. São Paulo nunca dorme. Essa é, de fato, uma realidade. Ao longo do trajeto, outras pessoas entram na condução, mais carros trafegam pela via e uma pequena multidão movimenta a Ceagesp, a partir da entrada pela Avenida Dr. Gastão Vidigal, na Vila Leopoldina. Isso ainda antes do Sol nascer e do relógio completar três horas da manhã.

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O movimento na área do pescado – CEAGESP.

Mesmo assim todos estão ocupadas. O varejão de pescados, criado em 1969 e, hoje, uma das principais atividades da Ceagesp, está cheio. Caixas brancas e amarelas de peixes das mais variadas espécies, mergulhadas no gelo, correm de um lado para o outro, empurradas por ajudantes. É a sardinha, o salmão, a merluza, o lambari! São mais de 97 opções que impregnam o ambiente com seu odor tão característico, capaz de enjoar os desacostumados. Há também pedaços de peixes deixados no caminho até o galpão e uma neblina, das baixas temperaturas.

Ali, Thiago dos Santos também corre, com seus 23 anos e suas luvas verdes. O jovem trabalha em um restaurante na cidade vizinha, Osasco, e carrega consigo um carrinho cheio de caixas com camarão. Seu olhar está atento a tudo que acontece e nossa conversa é rápida. Ele me diz que não sabe direito de onde vem a mercadoria que leva e que nunca conheceu o mar. “Não por falta de oportunidade, tá? Não tenho vontade mesmo”, ele explica e vai indo, embora, juntando-se aos outros trabalhadores da madrugada. Sem saber que os principais fornecedores são dos estados de Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, mas isso é um mero detalhe.

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As hortaliças da Feira das Flores – CEAGESP.

A pressa é desculpável. Diariamente, 200 toneladas de peixes são comercializadas por dia e toda essa mercadoria precisa chegar fresca à mesa das pessoas. Do que é vendido, uma pequena parcela só é congelada e pode descansar nos freezers, mas a maior parte, não. Essa ainda precisa chegar, hoje, ao seu destino final, seja ele os restaurantes que servirão o almoço ou as feiras menores, que abrem a partir das sete horas da manhã. Ou seja, é preciso correr.

NEM TUDO SÃO FLORES

Do outro lado do terreno da Ceagesp, antiga Ceasa, está concentrada a Feira de Flores, que começou à meia-noite e só terminará às oito e meia da manhã. Ali tudo é diferente, a começar pelo cheiro. Se antes, era o odor dos peixes que predominava, aqui é a fragrância das flores. A calmaria também contrasta muito com a situação anterior. As exceções de cenário tranquilo são os carregadores simpáticos e falantes que tentam arranjar clientes [para acompanhá-los até a saída] e alguns compradores, sempre em casais, empolgados com suas novas aquisições.

Esse clima mais ameno não impede as tão importantes vendas. Entre 800 a 1 milhão de toneladas de flores e plantas são comercializados, semanalmente, por cerca de mil produtores, segundo dados da própria organização. São muitos estandes e com os mais variados tipos de vegetais. Desde os ornamentais, como orquídeas, galhos de cerejeiras e costelas de Adão, até as mudas, como salsinha, hortelã e manjericão. Também estão presentes as árvores frutíferas com muitas jabuticabeiras e bananeiras.

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Luis Henrique Munhoz, hoje, vendedor de mudas e, amanhã, estudante universitário.

Num olhar mais atento, em meio àquele colorido proporcionado pela rica flora, estão os olhares cansados dos agricultores. A maioria deles cochila, em cadeiras de praia, cobertos por mantas também coloridas. O que não significa mau atendimento, porque ao primeiro olhar de um possível cliente, eles se levantam, dispostos, e explicam os detalhes do mais novo cultivo. Como a da orquídea com hastes negras e flores brancas, Ludisia Discolor, que compro de uma senhora japonesa. Sônia, com seus 69 anos, dá continuidade à plantação de seus pais na zona sul de São Paulo, mas é mais uma que vive um período de desânimo.

“Isso aqui não é vida para ninguém, não! É muito sofrido, cara, agora, a gente tinha que estar em casa descansando, mas estamos, aqui, trabalhando”, desabafa Luis Henrique Munhoz, de 20 anos, funcionário do Sítio São Benedito, em Cotia. No entanto, sua fala extrapola o tom de cansaço, independente dele ter acordado às seis e meia do dia anterior e não ter conseguido dormir ainda. Talvez, o que o alimente seja seus sonhos. No próximo mês, estará fazendo logística, na Unip, transformando sua experiência em cuidar da produção de mudas e ervas dos tios e de seu pai, que por sua vez, começaram seguindo os caminhos dos seus avós, há 40 anos atrás, em algo melhor ou pelo menos diferente.

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