Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles

Ciranda de Pedra é um daqueles livros que nos faz sentir as inseguranças da juventude, ao mesmo tempo, em que nos permite compreender a grandeza da vida. O primeiro romance de Lygia Fagundes Telles transita entre a melancolia dos sentimentos e a vontade de conhecer o outro, num exercício de alteridade. É uma leitura fácil, mas nem de longe simplista.  

Querer fazer parte de um grupo e não conseguir é praticamente uma situação universal na infância/ juventude. Sempre existe aquela turma mais descolada e você pensa que nunca será como eles, porque os outros têm vida fácil e tudo lhes chega na hora que querem. Era dessa forma que Virgínia, a protagonista de Lygia Fagundes Telles, vivia. No entanto, essa sua impossibilidade de ser/estar com os outros era representada por cinco estátuas do jardim, todas de mãos dadas e fechadas nelas próprias. Enquanto, ela, menina, não conseguia participar e só podia observar.

Não foi por falta de tentativas que ela não integrou o “grupo”, aquela ciranda de pedra. Quantas vezes, chorando ou não, tentou mover as mãos dadas das pedras, sem nunca obter êxito? Muitas. Em sua inocência de menina, os objetos imóveis cederiam lugar para ela na roda. Só que ela não pôde com as estátuas e nem com os amigos. É verdade, ela também não era boa com as amizades. As duas irmãs, Bruna e Otávia, e os vizinhos, Conrado, Letícia e Afonso, sempre viveram num mundo a parte e distante do seu.

Virgínia era uma garota solitária, o que faz do romance de estreia de Lygia (1954) uma história densa e complexa, mas nem um pouco apelativa. Segundo  Carlos Drummond de Andrade: “As notações psicológicas são as mais finas, e a evolução da trama vai oferecendo quadros de costumes que dão à obra importância como documento social, sem entretanto lhe tirar qualquer de suas qualidades como obra puramente literária, isto é, obra de arte, válida por si mesma”.

A fineza do psicológico, comentada por Drummond, é a habilidade da autora em não tratar o imaginário da criança como algo pequeno, apresentando sua devida dimensão. Aqui é preciso explicar que o livro é dividido em duas partes, sendo a primeira sobre a infância de Virgínia, o que engloba a relação com sua mãe enferma e a casa de Daniel, e a segunda integra sua maturidade, o retorno do colégio interno. Só que é na primeira divisão do livro que essa parte é exacerbada, como nos pavores da menina em não matar formigas, porque alguém, em algum dia, contou-lhe que quando matamos um animal, voltamos na outra vida como ele. E, é claro, que ela jamais queria ser uma formiga, rs.

Uma outra passagem delicada é a fala de Daniel sobre o porquê das coisas, dificilmente, voltarem a ser como eram no início e, nesse momento, considero um dos ápices poéticos de Ciranda de Pedra. “Uma vez, quando eu era menor ainda do que você, brincava com um espelhinho à beira de um poço da minha casa, eu morava numa fazenda meio selvagem. O poço estava seco e era bonito o reflexo do espelhinho correndo como uma lanterna pela parede escura, sabe como é, não? Mas de repente o espelho caiu e se espatifou lá no fundo. Fiquei desesperado, tinha vontade de me atirar lá dentro para ir buscar os cacos de meu espelho. Então alguém – Acho que foi meu pai – levou-me pela mão e me consolou dizendo que já não adiantava mais nada porque mesmo que eu juntasse um por um os cacos todos nunca mais o espelho seria como antes”.

Não sei vocês, mas essa passagem me arrepia de tal maneira e isso se deve também pelo desespero de Virgínia em querer a mãe sã novamente. Ela precisou de forças para compreender isso, ainda mais porque todo dia nutria a esperança de que sua mãe acordaria bem, como se nada tivesse acontecido. Ao longo do livro e da vida, ela foi percebendo que não seriam todas suas vontades a se realizarem, mas, nem por isso, nada aconteceria como ela planejara. Enfim algo acontece.

Virgínia, recém saída do colégio como uma das melhores alunas, retorna para casa. Ela tinha vivido anos de reclusão e poucas coisas sabiam a seu respeito, ou seja, a surpresa seria evidente, ainda mais agora, uma mulher. Aproveitando essa nova curiosidade por sua atual persona, todos iriam cear o natal em sua presença. Por todos, entenda aqueles “amigos” que nunca compartilharam sua vida com ela. Durante o jantar, toda a ciranda girava para ela e somente para seu deleite pela primeira vez. Aí, o riso é quase uma obrigatoriedade  e é fruto da ironia da situação, uma verdadeira comédia de costumes, como Drummond também pontuou.

Seria também um excelente final para o livro, mas Lygia Fagundes Telles ainda nos reserva mais de 40 páginas. Tive certo receio em chegar nessa parte, porque não conseguia pensar no que mais poderia acontecer. Não tinha ideias, mas uma frase de Otávia me entregou uma boa pista. “Por exemplo , que é que você sabe de nós? … Há mais coisas ainda, querida. Mas não, não fique agora pensando que somos uns monstros…”. Prefiro deixar o trecho incompleto  e preservar essa surpresa para quem for ler.

Quanto a minha leitura, foi muito boa e num exemplar da Companhia das Letras, de 2009. A fonte é ótima e o papel é pólen bold, mas a capa eu acho uma tristeza. No entanto, essa edição traz alguns textos complementares que são interessantes,  como a carta que citei de Drummond, um grande amigo de Lygia Fagundes Telles.

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