Caio F. Abreu, Hilda Hilst, Drummond e Mário de Andrade: Algo em comum?

Acrescente também alguns poetas mais desconhecidos, como Roberto Piva, autor de ParanoiaMaria Firmina dos Reis, escritora de Úrsula, Paulo Azevedo Chaves, autor de Narciso e Prometeu, Mário Faustino, escritor d’O Homem e sua Hora, e outros 35 poetas brasileiros. Há algo em comum? Sim, todos versaram sobre questões homoeróticas e estão reunidos no livro (em fase de projeto no Catarse), Poesia Gay Brasileira.

A coletânea inédita de poemas LGBTQ brasileiros recupera versos que datam desde o século 19 e que nunca haviam sido reunidos. Ali, entre eles, esses escritos preservam desabafos, inquietações, momentos de diversão, sexualidades reprimidas e sentimentos que rasgam a pele para serem expressos. Movidas por esse desejo de descoberta, da saída do armário dessas narrativas, que a design de projetos editorias Amanda Machado e a jornalista Marina Moura mergulharam no projeto e conversam por e-mail com a gente.

poetas-homoeroticos

Alguns poetas da coletânea e uma pergunta: Sabe reconhecê-los?

Quais motivos levaram a Amanda e você iniciarem essa pesquisa sobre a poesia gay brasileira? E qual a importância desse levantamento para o público LGBTQ?

Nós fomos levadas pela curiosidade de saber onde estava o gay na literatura brasileira, quais autores tinham falado da homossexualidade e como ela tinha sido retratada. Inicialmente, pesquisamos romances, contos, crônicas e poemas, e percebemos que o tema se encontra em uma vastidão de gêneros da nossa literatura. Por isso decidimos focar no gênero poema, que além de ser um gênero sensibilizador, não havia nenhuma compilação poética sobre o tema.

A importância de nosso levantamento é a de proporcionar aos leitores a possibilidade de conhecer de forma ampla e panorâmica poetas brasileiros que falaram sobre a homossexualidade em suas obras, além de conhecer de forma poética realidades e nuances de relações talvez diferentes das suas, possibilitando ao leitor criar empatia por outras formas de afeto. O público LGBTQ se beneficia ao ver questões que fazem parte de seu universo, em nuances e detalhes, retratadas poeticamente.

Nossa antologia dá a oportunidade de conhecer a obra de muitos desses poetas e reforçar que a literatura gay sempre existiu no Brasil – tendo sido tratada com qualidade por escritores e escritoras gays ou não. O livro mostra as vozes de escritores que utilizaram a literatura como forma de expressão e de luta, direta ou indireta, contra a homofobia e o preconceito.

“Porque ela passou

por aqui

dentro de mim tudo é

desordem” Simone Teodoro

Qual método de pesquisa vocês buscaram para encontrar os poetas presentes na coletânea. Imagino que nem todos eram conhecidos a princípio, então onde e por quais meios buscaram por essas referências? 

Utilizamos variados métodos. Levantamento amplo em bibliotecas, Internet, indicações, conexões – um autor ia lembrando de outro, que indicava outro, e assim por diante. Dessa forma fomos conhecendo a presença LGBTQ na poesia brasileira. Descobrimos autores por todo país. Mas a busca é difícil, especialmente porque a maioria dos escritores não dedica sua obra exclusivamente à temática homossexual, assim, tivemos que percorrer suas obras para fazer este recorte.

Existem alguns “cânones” da literatura LGBTQ que quando vocês começaram o projeto já sabiam que tal autor precisava estar lá? Se sim, de onde vinha essa fama?

Existem, mas quando se fala de poesia não é fácil chegar ao nome dos autores imediatamente. No gênero romance, por exemplo, lembrávamos de Cassandra Rios, João Silvério Trevisan, lembramos que até Grande Sertão, de Guimarães Rosa, tem passagens que remetem à relação homossexual. Lembramos Também de Caio Fernando Abreu, de João Gilberto Noll.

Na poesia, precisamos fazer uma pesquisa antes de chegar a nomes de autores. Mas nos ocorreram, sim, alguns nomes. Glauco Mattoso, Roberto Piva, dentre outros. Não são exatamente conhecidos como “cânones LGBTQ”, mas são escritores que “de cara” recordamos que tocaram na temática.

A homossexualidade, embora sempre presente, nunca foi bem aceita na nossa sociedade. Por isso, muitas biografias de autores devem colocar de lado esse “detalhe”. Como vocês lidaram com isso? Ou melhor, como argumentaram que determinado autor escrevia poesia homoerótica?

Sim, a homossexualidade foi apagada ou sublimada da biografia de muitos autores ao longo da história. A única forma de possivelmente ficarmos sabendo que este ou aquele escritor era gay, quando esta memória não é relatada em livros, é por meio de amigos e familiares que confirmam sua homossexualidade.

Com base nas entrevistas que fizemos com os escritores, podemos afirmar que a temática LGBTQ não surge em todo momento na obra deles, mas surge em determinado momento, aparentemente mais como uma inquietação, uma vontade de falar sobre algo que toca de alguma forma o poeta.

Por outro lado, imagino que devam ter encontrado algumas surpresas durante a pesquisa. Digo no sentido de personagens inesperados.

Muitos, muitos mesmo. Quem diria que acharíamos até um “poema gay” de Drummond no meio do caminho? Foi uma de nossas surpresas, já que o escritor mineiro, bem como sua obra, não são conhecidos por abordar o tema. Outra surpresa foi depararmo-nos com poemas de temática homo em profusão – muitos e belos. E a surpresa final foi notar que as mulheres escrevem, sim, sobre suas experiências em poemas. Foi difícil encontrá-las nas pesquisas iniciais, mas elas foram surgindo do meio para o fim do projeto!

“A FEBRE intermitente

alojando fagulhas

no azul fixo dos teus olhos,

inaugurando o sabor de incêndio

dos teus lábios” Luís França

Se pensarmos que o número de autores masculinos é pequeno, o que podemos dizer sobre as mulheres que escreveram poesias sobre outras mulheres?

O número de escritores homens é grande. Como lhe dissemos, nossa dificuldade inicial foi encontrar mulheres que abordaram a temática homossexual em sua produção poética. Mas elas existiram. Veja que temos uma autora, a maranhense Maria Firmina, que no início do século XX já escrevia poema retratando ciúme de uma mulher por outra.

Mais recentemente agregamos na antologia poemas de Renata Pallottini, escritora lésbica que tem 86 anos. Ela escreveu um poema sobre duas freiras encontradas abraçadas durante a demolição de um Convento de Carmelitas, na Luz. Quer mais do que isso? A dualidade da culpa e do desejo. A religião, o amor irreprimível. Mas ainda faltam estudos que recuperem estes registros de forma mais sistematizada.

Sinto que nos falta entender e até mesmo esforça para conhecer o outro. É claro que em meio a pesquisa pelos poemas, vocês tiveram que se aprofundar também nas histórias pessoais dos autores. Alguma em especial pode ser citado pelas dificuldades da vida ou pela resistência de sua voz.

A história de Cassandra Rios é uma das histórias que achamos inspiradora. Ela começou a publicar quando tinha somente 16 anos e foi uma das primeiras autoras brasileiras a falar sobre amor entre mulheres, o que fez desde que publicou seu primeiro romance. Sua atitude e resistência fez com que seu nome ganhasse destaque, sobretudo nos anos 60, época em que a ditadura militar tornou-se mais vultuosa. Cassandra Rios deu luz à cerca de 60 livros, na contramão do preconceito homofóbico, do machismo e da opressão do regime.

 

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