Além das Gerações – Um comércio da Sé

(In)Capaz de transcender as leis do tempo

“Recomeçar, recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre”. A frase do cineasta Luiz Sergio Person está no filme “São Paulo Sociedade Anônima”.  Ali, era retratada uma outra metrópole, de uma outra época. Uma linha de produção era o auge da modernidade. As esteiras nunca paravam e os produtos eram incansavelmente montados. Toda a indústria, no caso a automobilística, precisava do novo. Essa ânsia pela novidade cresceu e cresce cada vez mais. É raro o que resiste ao tempo.

A Chapelaria Paulista é um desses raros exemplos de uma outra São Paulo. Fundada em 1914, sempre esteve no mesmo endereço. Na rua Quintino Bocaiuva, número 94, no centro da cidade. O primeiro proprietário foi um Italiano chamado Umberto Zucchi. Como sugere a tradição, o comércio foi passado para seu filho, Aldo Lourenço Zucchi, e depois para seu neto, Aldo Zucchi. E a herança familiar terminou com Cristina Zucchi, esposa do neto.

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Foto da exposição “São Paulo não é uma cidade”, no SESC 24 de Maio, 2017 – Vale do Anhangabaú em 1930, de Ottokar Achtaschin.

A impressão de que a loja, que havia resistido 101 anos, se perpetuaria infinitamente era certeira. Ela sobreviveu às mudanças nos estilos de chapéus, às diferentes gerações de clientes e ao processo de decadência que a região sofreu. Só que essas e outras são as desilusões de quem acredita ser capaz de domar o tempo. A Chapelaria Paulista encerrou suas atividades em maio de 2015.

Por mais significativa que tenha sido, funcionários das outras lojas da rua sabem pouco ou quase nada sobre sua história. Claudio, vendedor de perucas no comércio Estoril, que trabalha na rua há oito meses, só soube afirmar a existência do tal estabelecimento fechado. Karina, funcionária da banca em frente ao antigo comércio, não pode acrescentar nenhum fato novo à narrativa. Assim, aos poucos, as histórias da lendária chapelaria se perdem e cedem espaço as novas novidades de São Paulo.

É raro

o que resiste ao tempo

Luís Antônio, um senhor que distribuí panfletos sobre compra e venda de ouro, disse que após o fechamento, o prédio entrou em reforma e, talvez, a chapelaria se restabelecesse. Mas tudo mudou em uma madrugada de julho, em 2015. A loja desmoronou e a única parte que restou intacta foi a fachada. Consta também que, naquela mesma noite, um pedreiro estava dormindo no local e, “por um milagre”, saiu para a rua minutos antes da antiga loja ruir.

Como os recomeços sempre chegam, aquele espaço também reconhecerá o seu. Os passantes da rua Quintino Bocaiuva reconhecerão a antiga fachada, agora, restaurada. Mas, no mesmo lugar, está a Joalheria Paulista, que manteve, em parte, o antigo nome.

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Foto da exposição “São Paulo não é uma cidade”, no SESC 24 de Maio, 2017 – Manifestação contra o custo de vida em São Paulo, em 1978, de Juca Martins.

Questionado sobre os valores da reforma, Lucas, um dos sócios do novo estabelecimento, preferiu não comentar. Outra pessoa que também se negou a comentar sobre a antiga loja foi sua última proprietária. Ao telefonar para a residência de Cristina Zucchi, soube por um terceiro que ela está muito envolvida em novos projetos e, provavelmente, não teria tempo para rever o passado. Mais tarde, tentando retomar o contato, o telefone estava sempre ocupado.

A nova joalheria se instalou no tradicional ponto a menos de um ano, mas promete repetir o feito da antiga chapelaria. Mais de 100 anos de funcionamento. É possível que consiga, ou não, só tempo provará. No entanto, é sabido que as experiências nunca se repetem como foram originalmente. O interior da loja já é outro, nem os tijolos são os mesmos. Os objetos à venda também não. Talvez, a única semelhança termine sendo o fato de ambos ocuparem o mesmo lugar.

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